líder*Por Dr. Bayard Galvão

A palavra liderar vem do inglês “lead”, que significa conduzir pessoas para algum fim; e chefe vem do latim “caput”, que significa cabeça. Destas duas etimologias, é possível considerar o que é dito acerca da postura esperada de uma e outra: convencer levemente um time versus impor ideias; motivar pelo prazer, alegria e felicidade versus motivar pelo medo, cobrança e pressão; incluir versus excluir; e colocar-se numa situação de coleguismo versus posição de superior, respectivamente.

Uma possível definição para o “politicamente correto” é: fale o que todos (minorias, maiorias, etnias, cores, religiões e variações) querem escutar e/ou não se preocupam em ouvir; e não diga ou não faça coisa alguma que possa incomodar alguém (algo impossível). A mídia, livros e workshops exaltam este líder.

Um excelente líder precisa possuir alguns conhecimentos e capacidades para exercer de maneira eficiente sua atividade: saber se relacionar; conhecer maneiras de motivar; entender o funcionamento da mente, minimamente; boa eloquência; objetivos claros; definir boas estratégias para atingir os objetivos; ter plano B; ter uma boa visão de futuro; lidar bem com pressões de chefes, clientes e crises; saber criticar de forma eficiente e respeitosa; saber perceber os limites de cada um e propor o que está dentro das suas capacidades; saber observar tendências e “timings” do mercado.

Focarei neste texto a virtude “saber motivar”, que é dar causas para uma pessoa se mover, e as pessoas assim o fazem por quatro razões:

– Duas com base no instinto: (1) buscar prazer e (2) fugir da dor;

– Duas com base na moral: (3) buscar ou representar o certo e (4) fugir ou evitar aparentar o errado.

Qualquer pessoa no planeta, quando agir com um mínimo de prudência, orientará as suas atitudes e vida com base nessas quatro causas (que podem se colidir e ir contra uma e outra, mas este seria outro assunto), sendo nuclear salientar que será sempre segundo o indivíduo que se quer motivar.

Há estímulos comuns que geram prazer e dor para a maioria das pessoas. Alguns terão mais ou menos prazer de base genética, comendo açúcar ou sendo tocado; outros terão mais ou menos dor com barulhos altos ou sofrendo pancadas; mas ninguém nascerá considerando belo determinado tipo de rosto, com ambição financeira, com crenças religiosas ou querendo ser bem sucedido.

Portanto, se uma das virtudes necessárias ao líder for saber motivar, ele precisa entender o que dá prazer, dor, o que é considerado moral e imoral para quem ele quiser liderar, dentro do razoável. Motivar um muçulmano tenderia a ser diferente de assim o fazer com um católico; dar causas para trabalhar para quem não tem filhos pode ser diferente para fazer o mesmo com quem sustenta dois filhos.

O líder considerado politicamente correto é aquele que motiva seus funcionários de maneira leve e agradável nas suas diferentes formas: elogios; recompensas financeiras; colocar o nome do melhor funcionário do mês em algum lugar de destaque; energia; sorrisos; bom humor; falas de inclusão (“todos vamos crescer!”); saber ouvir reclamações e oferecer soluções; escutar as ideias de cada colega e fazer de conta que concorda com todas, embora não usando algumas; não possuir colocações contundentes e só falar o que fizer o funcionário ou grupo se sentir bem. Todas essas posturas de um líder são almejáveis nesta função. Este é um dos dois caminhos para a motivação.

Vale perguntar o que funciona mais com o ser humano, mudança impulsionada pelo prazer ou pela dor? Não foram poucas as pessoas que disseram que crescemos na dor. A mais célebre frase foi de Nietzsche, que parece ter dito mais ou menos assim: “O sofrimento é o campo de treinamento para a superação de si”. Poucas pessoas buscam grandes mudanças sem dor. Quantas pessoas resolvem alterar as suas vidas alimentares, de exercício, casamentos ou posturas profissionais sem estarem sendo ameaçados nessas áreas?

Já o líder com uma postura “politicamente incorreta e sábia” trabalhará também com a motivação pela dor, de maneira moderada, leve firme e respeitosa, usando medo, ansiedade, angústia, pressão psicológica, punição e competição. É diferente motivar um funcionário dizendo “você vai melhorar o seu salário em 10% ao atingir essas metas” e declarando de maneira cordial: “infelizmente, caso você não melhore seus resultados, precisaremos lhe demitir.”. As duas frases podem ser verdadeiras, uma tende a motivar mais do que a outra, e ambas podem ser ditas de maneira respeitosa. Um bom líder precisa saber usar os dois caminhos.

Muitos dos erros que estão sendo cometidos na educação das crianças, como superproteção e pouca exigência, também têm sido cometidos em livros e palestras sobre liderança, descrevendo o ideal de “líder” como sendo “legal”. Na realidade, acima de qualquer coisa, o líder precisa ser eficiente, agradável quando possível e impositivo se necessário, embora sempre respeitoso.

Algumas ideias sobre liderança divulgadas hoje em dia são como muitas músicas românticas: vendem bastante, mas tendem a estar bem longe da realidade.

*BAYARD GALVÃO é Psicólogo Clínico formado pela PUC-SP, Hipnoterapeuta e Palestrante. Especialista em Psicoterapia Breve, Hipnoterapia e Psiconcologia, Bayard é autor de cinco livros, criador do conceito de Hipnoterapia Educativa e Presidente do Instituto Milton H. Erickson de São Paulo. Ministra palestras, treinamentos e atendimentos individuais utilizando esses conceitos.